Carine passeava próxima a um lago, em um parque, enquanto fazia fotografias. Carine se distraiu olhando um casal que se beijava num coreto, quando sua máquina escorreu da mão e percorreu todo um caminho íngreme de terra que levava até o lago. Paralisada, sem saber o que fazer, Carine sorriu e como um filme, pensou em todo o trabalho que teve para comprar a máquina. Não era um modelo novo, também não era o modelo que ela tinha paquerado nos sites de compra, mas era a máquina que ela gostava. É claro, que enquanto ela pensava nisso a câmera continuava afogada perdendo qualquer chance de ser salva. Foi quando Carine começou a, vagarosamente, andar até o lago. Enfiou a mão na água suja, e retirou a máquina. Era um lago artificial e raso. Ela sentou na margem, aonde ainda era meio úmido e sujo como a água, e foi desmontando a máquina devagar enquanto pensava nas melhores fotos que tinha feito e projetava fotos que viria fazer.
De nada adiantava mais, ela sentia vontade de largar a câmera ali mesmo. “que vontade de largar essa merda aqui”, pensou em voz alta, olhou pra frente e por 10 segundos manteve a cabeça vazia. Carine sabia que era tudo assim, coisas escorregavam da sua mão, rolavam por alguma pequena ribanceira qualquer. Enquanto elas se perdiam ela refletia sobre o que estava acontecendo, então sem força nem esperança ia ver seu prejuízo sem salvação, e assim desistia do objeto.
Mesmo que os objetos um dia tenham sido grandes sonhos. A culpa nunca era dela! “escorregou” pensava se enganando. Os sonhos também escorregavam, o desejo também e ela ria mesmo, rindo da própria desgraça e balbuciando “que merda”. Que pouco significado para uma vida que se desfaz. Em sonhos que se transformam em objetos, que registram novos sonhos, momentos, paixões. O tesão pelo objeto que se esvai também, sem medo de perder mais alguma coisa nessa ‘merda de vida’.
Foi quando Carine desejou, legitimamente, o mesmo destino da sua máquina. Não pela tristeza de ver a câmera se afogar, com as fotos do parque e, ironicamente, do próprio lago. Sim, porque era lógico que esse era o destino dela: escorregar das próprias mãos fracas e se perder. Acabar com suas funções, sua utilidade. Era a vez da Carine escorregar e encontrar no fundo, em algum lugar com todos os momentos, registrados ou não pela câmera.
Quando o amor juvenil escorregou, o amor libertário, o casual, o maduro, quando o ensino acadêmico escorregou por 3 vezes distintas, quando amizades escorregaram, e os prazeres que ela não quis salvar. Por fim, a esperança de um dia aprender a segurar com firmeza nas próprias mãos quaisquer desses elementos se juntou a eles. Ali foi, definitivamente, a vez de Carine também se acabar.