As outras palavras de Maria

12 jan

Maria não estava sozinha, estava na casa do seu namorado, de 4 anos, que dormia na sala enquanto o filme que ele pretendia ver já estava no final e ele ressonava alto. O filme era mais uma história sobre casais de amigos, encontros, desencontros e reencontros. Só que dessa vez era mal contada. Maria estava acompanhada do namorado que dormia, e tinha do seu lado a agenda do ano que acabara enquanto passava os números de telefone para a nova agenda. Uma agenda definitiva. Uma agenda que não tem datas. Só tem letras. Aquelas agendas que nunca dão espaços o suficiente para as pessoas que começam com a Letra A e as pessoas que começam com a Letra M invadem o espaço da letra N e assim vai. O Y geralmente fica vazio, e o Z praticamente em 90 porcento dos casos também não tem ninguém. O C têm as cooperativas de táxis e os D os disks! Disk Água, Disk Gás, Disk Sexo talvez.
Ela arrancou uma folha da agenda velha. A data era 23 de outubro. Primeiro dia de escorpião. Na folha não tinha nada escrito. Na anterior estava marcada a festa de uma amiga dela, no último dia de libra. Maria tinha alguns amigos librianos e eles a deprimiam geralmente. Librianos tendem a estarem sempre alegres e incertos. Talvez porque certeza e razão estão para alegria e felicidade como água está para óleo. Maria não teria dúvidas sobre o que usar para rabiscar o papel. Decidida a não mais repassar contatos telefônicos ela usava um lápis para anotar os nomes na agenda nova e caso eles mudassem ela não precisaria rabiscar, rabiscar, rabiscar até o ponto que tivesse que comprar mais uma agenda sem datas. Com aquele lápis ela olhou o rosto do seu namorado e começou a desenhá-lo. Desligou a TV e vinte minutos depois mal e porcamente estava o rosto dele desenhado na folha do primeiro dia de escorpião.
Maria começou a puxar setas do olho esquerdo e direito. Do nariz e da sobrancelha esquerda. Do lábio inferior, maior que o lábio superior. Da cova da bochecha direita e do cabelo jogado para o lado esquerdo. Mas começou a escrever anotações sobre o desenho pela última seta que saia do queixo para o lado esquerdo da face desenhada. “Por aqui é onde sempre começo os beijos, quase sempre inúteis”. Outra seta saía da sobrancelha “está é a sobrancelha que levanta logo após o beijo no queixo”. A terceira saia do olho direito “este é o olho que aperta quando a sobrancelha levanta e faz você parecer feio” Depois a do olho esquerdo “este olho é o que faz você parecer um grande crítico temidos até mesmo pelos artistas mais bem sucedidos”.
Depois do segundo olho era a vez do lábio inferior, “este não se move quando você diz que está cansado. Como consegue falar movendo mais o lábio superior? Como se estivesse com nojo” aquela forma de falar irritava Maria, como nada mais poderia irritar. Na sexta seta, a que saia da cova na bochecha, ela indicou “devia pensar como nasceu essa cova. Acho que ela é filha de tantos sorrisos irônicos, meio de lado, meio debochados”. Do Nariz ela escreveu concisa “a única parte que é honesta”, e do cabelo jogado para o lado, “isto você não controla”.
Não fazia sentido, mas ela daria aquilo para ele. Poderia criar uma grande briga entre eles, ele faria o olhar crítico e ela se sentiria uma idiota por ter feito o desenho e todas as setas e observações tolas. Mas era o que ela iria fazer. Eram os outros passos da Maria, não temer parecer idiota, ou continuar forjando ser aquilo, o que ela acreditava querer ser, ou coisa que valha.
Então, deixou o papel sobre a mesa, a agenda que não servia mais para nada virou peso do papel que era dela. Maria se levantou e deu um último olhar sobre o namorado até que andou até a porta de saída e com o mesmo escreveu na parte interna da porta. “Por favor não me procure mais. Gostaria de viver aqui, mas você nunca teve a decência de me convidar. Agora me é tarde demais” Escrever com a mão para cima cansava, ainda mais depois de ter passado tantos números e nomes de uma agenda para a outra. “Não acho que funcionamos mais, estamos milhas e milhas de distância emocional um do outro”. Era, talvez, a coisa mais clichê que ela poderia escrever. Não tinha como apagar mesmo sendo lápis, ia borrar toda a porta. “Não me importa o que você vai pensar disso. Não me importa mais o que você pensa” de fato não importava. “se hoje o meu espírito está enfraquecido, deve-se isso ao que você sugou de mim, por esses anos. Fins são sempre dolorosos, mas quando não dói é decepcionante” Maria não sentia nenhum arrependimento ou tristeza sabendo que estava pondo um ponto final naquele relacionamento. “Eu já te amei. Não mais, e é uma pena. Agora eu sinto como se nem uma razão para o fim eu devesse te dar. Bom saber que não há razões aqui.” Maria saiu silenciosamente, levando apenas sua nova agenda sem datas e sem signos. E pela primeira vez, em muito tempo sorriu sem razão de ser quando o elevador chegou e dali ela saiu. Para nunca mais voltar.

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