Arquivo | abril, 2010

Murilo, Paula e Ricardo

30 abr

Enquanto Murilo puxava assunto, Renato corria dos papos e Paula se ressentia pelo jeito errado que as coisas acontecem. Murilo era um bruto que falava muitas abobrinhas, mas quando estava com a Paula era um doce de pessoa, capaz de fazer voz, daquelas ridículas que se faz para namoradas, além de conversar sobre ótimos filmes e livros. Renato que era inteligente e sensível às nuances sutis das coisas, com a Paula era debochado, do tipo que fica fazendo graça com a cara dela e falava sobre futebol.

Os três fumavam. Murilo fumava o mesmo cigarro que a Paula e na mesma quantidade. Ricardo fumava um cigarro esporádico de filtro amarelo. Os três gostavam de maconha: Murilo mais, Renato médio e Paula menos. Os três bebiam, Murilo menos, Paula médio e Renato mais. Todos gostavam de fotografia e de um videoclipe com ratos e baratas, mas era impossível saber quem mais ou menos, neste caso.

Paula conhecia Renato há anos, Murilo a conhecia há alguns meses. Renato e Paula não tinham muito mais do que três amigos em comum. Murilo tinha uma lista vasta de amigos e conhecidos em comum com a Paula. Murilo e Renato não se conheciam e se fosse o caso, não fariam questão de conviverem. Para Paula as horas com Renato voavam e com o Murilo se arrastavam por vezes. Era evidente que ela gostava da companhia do Renato.

Paula estava dividida entre Murilo e Renato, enquanto corria do Victor no bar domingo após o jogo, enquanto corria de um franguinho cujo nome pouco importa na balada de sábado e também enquanto sentia saudade, todas as quintas-feiras, do amigo do Alessandroque ela não via há quase um ano. Eram duas mensagens pelo celular, duas vontades de telefonar, dois motivos para voltar para casa um pouco mais cedo do que o regular.

Em uma noite de sexta feira, Murilo chamou Paula para sair e ela ja tinha engolido na base de três comentários sobre a sua burrice que o culto Renato tinha tecido. Ela caminhava por uma rua meio vazia, não chovia, mas as ruas estavam molhadas e fazia frio. Ela pensou sobre sair com Murilo, mesmo que quisesse estar com Renato naquele dia. De uma hora para outra, nada daquilo fazia mais sentido, foi quando Paula entendeu que não estava dividida entre nenhum deles, porque de todas as companhias que ela pode ter, a melhor era ela mesma.

A (programação) DA SEMANA

29 abr

Se resume em: Lapa.

Sexta, dia 30 de abril, o Nouvelle Vague fará show no Circo Voador. Parece que as velhinhas, como “Road to Nowhere” (Talking Heads), “God Save the Queen” (Sex Pistols), “Too Drunk too Fuck” e “Dance With Me”, estão no setlist. (L)
Eu, como mega fã de versões… estou ansiosa.

Sábado, o primeiro mês, rola um girls date clássico do Rio: Feira Rio Antigo na Rua do Lavradio. Open Air Shopping.

… E Vênus em Virgem.

28 abr

Eu me lembro de quando sua roupa me servia e de como eu gostava daquele blusão azul surrado que você tinha ciúmes. Eu projetava você de um jeito tão diferente do que você realmente é. Mas o que é “realmente ser”? Essas coisas inatingíveis e discussões filosóficas não fazem o meu gênero. Não hoje. E “hoje” no sentido muito literal, porque é assim que eu realmente sou, amanhã pode ser que faça o meu gênero.

Na época da camisa azul surrada eu gostava de ler coisas que você não escrevia, ouvir frases que você não dizia. Eu estava na maldita fase das entrelinhas, achava que, por algum motivo qualquer, tudo estava nas malditas entrelinhas, quando na verdade só está o que a gente quer e consegue ler. É tão limitado. No cantinho daquele beliche que eu dormia eu sentia vergonha só de imaginar alguém que pudesse saber como eu acreditava que você conseguia me ouvir em pensamento. Eu projetava você.

Lembro também do dia que fui fumar do lado de fora da casa, estava descabelada e irritada com você. Quando abri a primeira porta, olhei pelo vidro da segunda e você estava ali, sorridente, tentando me ligar para fazer uma surpresa. Meu coração disparou, depois de meses juntos foi quando você fez o meu coração realmente bater acelerado sem envolver nenhum esforço físico. Pensei que não ia mais ter controle sobre nada nesse jogo que são as relações entre homens e mulheres. A partir daquele dia você foi ficando mais real.

Meu coração disparou, mas não pude deixar de notar seus sapatos. Como eu odiava aqueles sapatos! Também não gostava daquele chapéu, nem daquele casaco, mas os seus sapatos… eles eu não conseguia engolir. Tinha vergonha quando você saia na rua comigo, calçado naqueles sapatos esquisitos de tecido. Nunca consegui vestir aquele par de sapatos, nem quando ele era a única opção para evitar o chão gélido da sua casa. Eles nunca me serviram, e hoje, no sentido figurado, nem as suas roupas não me servem mais.

Juliana e o café da manhã

5 abr

Juliana fazia questão de uma mesa bem posta, com muitas frutas de cores diferentes. Morangos inteiros, Manga Rosa fatiada, rodelas de abacaxi, Kiwi cortados em 4 partes. Ela também não dispensava um iogurte natural e o pote de mel ao lado para ela mesma misturar. Aquele iogurte que já vinha com mel não substituía o que ela misturava. Ela gostava de comer pães de massa fina, apesar de preferir sacadura, “sacadura é bom com azeite extra virgem antes do almoço, e não no café da manhã”. Juliana também era adepta do café feito em cafeteira italiana, misturado leite semidesnatado. Algumas vezes, quando o leite era desnatado, ela preferia tomar com chá preto.
Como Juliana gostava das manhãs. Não apenas pelo prazer do paladar. Não!Era visual, era ritual. Se alguém acordasse antes das 7 horas da manhã, e colocasse a mesa do café para ela, não tinha o mesmo sabor. Ela gostava de escolher a toalha, arranjar as peças e os talheres na disposição certas. Assim como as frutas. O suco de laranja sempre estava ao centro da mesa, na jarra lisa de cristal, ou mesmo na de vidro. Os talheres podiam ser vermelhos ou prata, desde que fossem se vermelhos, todos vermelhos, se prata, todos prata.
Não que Juliana não apreciasse outros cafés da manha, como os de hotéis luxuosos, com um buffet cheio de variedades raras, ou mesmo de uma pousada com gosto de café do campo. Ela gostava muito, porém não tanto quanto os que ela fazia em casa. Também gostava de café na bandeja, em cima da cama, com gosto de preguiça. Vez ou outra, porém o café de todos os dias era insubstituível.
Toda vez que ela terminava seu suco de laranja, última coisa que ingeria pelas manhãs, Juliana começava a ler o jornal. Contudo, ela nunca leu nenhuma palavra antes de pensar “Tomar café é como fazer sexo”. Vai-se entender porque… o fato era que depois do jornal, ela voltava para a cama e dormia novamente.