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Status 0: Hoje, todos os meus status são para você, meu bem

20 set

Aurora carnaval. Ele disse que não morava ninguém dentro de mim.

Foi como a primeira tentativa de tragar um cigarro. Tentar sentir como todos dizem que sentem. Eu não sinto assim.

Ele afastou de mim as quimeras que me apreendem e isso já me fazia amar demais.

Toda compreensão e paciência aos rompantes, às diferenças e aos excessos dele.

Tic-tac, tic-tac. Dedicação traduzida para “sangue de barata”, “sangue de barata”.

 

Na atual e finita obrigatoriedade de conviver, todos os meus status são para você, meu bem!

Você fala mais besteiras do que pode imaginar. Até do que o meu preconceito com caras desse tipo pode conceber.

Você prova que vinis, cigarros e raybans não têm diferença dos iPods, açaís e Reefs.

Raro demais, mas você podia ter tido a voluntária compressão.

Mas, se mesmo n’um grande esforço, você não se manteve aqui, foi com um grande esforço que você implodiu tudo com um “eu também” mal empregado.

Você usa lente de aumento quando olha o espelho do seu ego?

 

Por isso… Hoje, todos os clichês covardes, dessa autoajuda gratuita da nova era, são para você.  “A arte de ouvir merda e falar mais merda ainda de volta!” “Prefiro me fazer compreendida a me fazer de evoluída.”  “Quando o interlocutor acha que paciência é sinal de ser otário.”

A Menina da cara torta

23 abr

A menina de cara torta não tinha amor, não tinha casa, não tinha nada. A menina de cara torta não tinha beleza, era puro desgosto e muita tolice. Nenhum talento tinha a menina de cara torta. Por nada era reconhecida, nem pela sua cara torta. Ela via mais um lado no nariz do que o outro e não conseguia comer sanduiches porque sua boca era muito pequena. A menina de cara torta não enxergava direito, não podia usar lentes porque era alérgica e não podia usar óculos porque eles não encaixavam na sua cara torta. Não inventou nada nem tentou nada. A menina de cara torta não tinha uma casa, nem um amor, nem nada.
A menina de cara torta tinha a cabeça empoeirada e também tinha sido abandonada. Ninguém se movia por ela, nem a própria.

A menina de cara torta virou uma mulher de cara torta.

A mulher de cara torta não gostava da labuta. A mulher de cara torta apreciava a vida que nunca teria, quando conversava com novas pessoas. A mulher de cara torta não viajava para fora do país, só sabia o que lhe contavam. A mulher de cara torta não tinha religião e só um pouco de amor no coração.

A mulher de cara torta tinha rugas e virou a velha de cara torta, mas sobre isso não há mais o que contar.

Mirian e o gap

15 mar

Mirian nunca pode conversar com Tobias sobre as coisas que gostava de discursar. Queria saber mais sobre o conflito de Israel com a Palestina e contar sobre quando ficou na mesma casa que um palestino no Fórum Social Mundial. Sempre que ela falava sobre isso, o fazia com os olhos brilhando. De Tobias, queria sentir um mínimo de compreensão, caso algum dia contasse essa história.

Mas ela e Tobias não tinham um gap tinham um abismo. Ele a achava chata e ela o achava bobo. Ele dizia que a forma com que Miriam se relacionava era superficial, ela via nele a necessidade de um relacionamento infantil. Ela o achava inseguro e limitado, ele a achava fechada e distante. Mirian enjoa de tudo em pouco tempo, Tobias ama tudo o que ele faz. Ela o achava um moleque desatento e ele a achava uma formiga que só trabalha. Ela gostava de fugir da realidade, ele desconhecia a realidade.

Tinha um tempo que não se viam. Mirian sentia saudades, mas não acreditava no benefício de uma volta para nenhum dos dois. Ela acreditava que ele era incrivelmente boa pessoa, simpático e carismático. Ele não pensava o mesmo dela, achava Miriam comum, acomodada e taciturna, embora ele não soubesse o significado dessa palavra. O fim foi rápido.

Eles tinham interesses opostos. Tobias é um tanto burrinho, embora não completamente, e não queria aprender coisas novas. Miriam é bastante sedentária e não sabia aproveitar a natureza, embora gostasse de apreciá-la. Eles não tinham o que trocar.

Miriam sente saudade das noites. Bem compartilhadas em pernas entrelaçadas que pareciam terem sido feitas sob medida uma para a outra. Em conversas com amigos, ela gostava de deixar claro o quão boa pessoa ele é e o quanto ela o quer bem. De qualquer forma, algumas vezes era possuída pela raiva, e, quando perguntada, costumava dizer em tom pejorativo: “Não conseguia conversar com ele.  Temos um gap cognitivo.”

Dessa vez foi a Gestrudes que entrou pelo cano

27 jan

Dormiria dali para frente todas as noites numa cama de ferro típica, dura e gelada.

Guardava ódio daqueles garotos infantis e mimados pelas mães que nunca saberiam o que exatamente era ter que dormir daquele jeito. Ódio da cara deles e daquele sentimento piedoso, porém ignorante dos meninos que não faziam o menor esforço para crescer. Não queriam encarar nada por conta própria.

O ódio não ajudava em nada, porque mesmo com o calor do seu corpo explodindo em raiva, a cama de ferro ainda assim era fria demais.

Ela amadurecia a cada noite, e, se houvesse uma medida comparativa amadurecimento-sorriso, Gestrudes poderia mostrar ao mundo o quanto amadurecer retirava o sorriso do seu rosto.

Cada crença adolescente que caía, se espatifava, na realidade, uma camada de concreto era posta numa couraça que se erguia e, ao longo da vida, transformava Gestrudes em uma mulher de pedra. Pedras ocas, que com o soco de uma criança viram areia e poeira.

E os garotos continuavam a passar com suas esmolas e ações de caridade para acreditarem que ajudavam em alguma coisa. Depois que viravam a esquina, gastavam, entre risos, o dobro, o triplo das esmolas em alguma bebida que se quer era realmente boa. Compravam brinquedos para adultos e jogavam fora no mês seguinte.

Ela, por sua vez, gostaria de nunca mais aceitar aquela esmola hipócrita, mas eu, Hanna, não sei se algum dia Gestrudes conseguiu chegar aonde queria. Sequer sei se ela sabia onde queria chegar. Só sei que não queria aquela cama, nem aquelas esmolas.

Um texto

14 out

Um menino sentado numa cadeira de rodas a alguns anos. Seus movimentos na perna tinham sido perdidos em um acidente a algum tempo.

Uma menina andando na rua sem rumo, sem nada. Ela nunca experimentou o aconchego do lar, as carícias dos pais.

O acidente dele aconteceu quando ele ainda era criança. Sempre pensou na liberdade de poder correr com os outros garotos, andar pela praia com a menina que ele gostava e, era o que ele mais queria, jogar futebol. Sempre havia sido a paixão dele. E ele nunca pode fazer isso.

Bonecas. Era isso que ela mais gostaria de ter. Sempre que passava em alguma loja de rua ficava olhando as outras meninas brincando, rindo, felizes. Sempre quisera saber qual cheiro tinha quando se tirava uma boneca da caixa, o perfume dos cabelos, trocar as roupas do brinquedo.

A algum tempo ele estava perdendo o apetite. Sua mãe já estava ficando preocupada. Ele simplesmente não tinha mais animo.

Revirar latas de lixo sempre foi comum para ela. As pessoas sempre que passavam olhavam com caras indignada, pensando que aquilo era um absurdo.

Ele preferia a solidão a ficar com pessoas. Assim podia sempre escapar dos olhares de pena e outras coisas que sempre lançavam para ele. Não era sacrifício algum ficar sozinho, ao contrário, ele sentia prazer na solidão. Assim ele podia ficar fantasiando, olhando para o nada sem ter que dar satisfações a ninguém.

Ela apenas ficava com pessoas porque lhe era conveniente. As ruas são perigosas para meninas sozinhas. Ela não podia prever o que podia estar a espreita na próxima esquina. Sempre ouvia histórias de garotas violentadas enquanto ficava com os outros.

O dia ia alto quando ele acordou. Não quis saber as horas, queria apenas ficar deitado, quieto. Não fez barulho algum, não sentou em sua cadeira, não ligou a tv, nem nada. Ficou apenas ali. Parado. Sentia que alguma coisa saia dele. O que era ele não sabia dizer. Parecia que era a vida. Ele foi fechando os olhos e viu um campo. E tinha uma bola. E ele podia correr. E ele finalmente tinha a liberdade que sempre quisera.

A noite estava muito escura e fria. Ela procurava um lugar para ficar. Algo a incomodava. Parecia que alguém estava acompanhando os seus passos. Ela nunca sentira isso antes. Ela olha para trás e suas suspeitas se confirmam. Ela estava sendo seguida por um homem. Aquilo a perturba de uma maneira que não pode ser explicada por palavras ela apenas sente que o homem está aproximando cada vez mais rápido então ela começar a andar mais rápido também sempre sentindo que ele está chegando e então ela começa a correr e ele imita, mas como ele é mais alto e ganha alguma vantagem sobre ela que tropeça e cai. Ele a alcança. Ela fecha o olho. Tenta se convencer que tudo não passa de um pesadelo, que logo ela vai acordar. Ouve os urros dele. Ela continua firme, olhos fechados e lábios contraídos. A dor a invade. Pouco tempo depois acaba. Ela sente algo arranhando o pescoço dela e em seguida alguma coisa quente.  Tudo é substituído por uma caixa sobre uma mesinha num quarto de menina. Ela finalmente sente o cheiro de uma caixa de bonecas sendo aberta. Tinha cheiro de morangos.

Postado por Pedro Wajsfeld

 

Murilo, Paula e Ricardo

30 abr

Enquanto Murilo puxava assunto, Renato corria dos papos e Paula se ressentia pelo jeito errado que as coisas acontecem. Murilo era um bruto que falava muitas abobrinhas, mas quando estava com a Paula era um doce de pessoa, capaz de fazer voz, daquelas ridículas que se faz para namoradas, além de conversar sobre ótimos filmes e livros. Renato que era inteligente e sensível às nuances sutis das coisas, com a Paula era debochado, do tipo que fica fazendo graça com a cara dela e falava sobre futebol.

Os três fumavam. Murilo fumava o mesmo cigarro que a Paula e na mesma quantidade. Ricardo fumava um cigarro esporádico de filtro amarelo. Os três gostavam de maconha: Murilo mais, Renato médio e Paula menos. Os três bebiam, Murilo menos, Paula médio e Renato mais. Todos gostavam de fotografia e de um videoclipe com ratos e baratas, mas era impossível saber quem mais ou menos, neste caso.

Paula conhecia Renato há anos, Murilo a conhecia há alguns meses. Renato e Paula não tinham muito mais do que três amigos em comum. Murilo tinha uma lista vasta de amigos e conhecidos em comum com a Paula. Murilo e Renato não se conheciam e se fosse o caso, não fariam questão de conviverem. Para Paula as horas com Renato voavam e com o Murilo se arrastavam por vezes. Era evidente que ela gostava da companhia do Renato.

Paula estava dividida entre Murilo e Renato, enquanto corria do Victor no bar domingo após o jogo, enquanto corria de um franguinho cujo nome pouco importa na balada de sábado e também enquanto sentia saudade, todas as quintas-feiras, do amigo do Alessandroque ela não via há quase um ano. Eram duas mensagens pelo celular, duas vontades de telefonar, dois motivos para voltar para casa um pouco mais cedo do que o regular.

Em uma noite de sexta feira, Murilo chamou Paula para sair e ela ja tinha engolido na base de três comentários sobre a sua burrice que o culto Renato tinha tecido. Ela caminhava por uma rua meio vazia, não chovia, mas as ruas estavam molhadas e fazia frio. Ela pensou sobre sair com Murilo, mesmo que quisesse estar com Renato naquele dia. De uma hora para outra, nada daquilo fazia mais sentido, foi quando Paula entendeu que não estava dividida entre nenhum deles, porque de todas as companhias que ela pode ter, a melhor era ela mesma.

Juliana e o café da manhã

5 abr

Juliana fazia questão de uma mesa bem posta, com muitas frutas de cores diferentes. Morangos inteiros, Manga Rosa fatiada, rodelas de abacaxi, Kiwi cortados em 4 partes. Ela também não dispensava um iogurte natural e o pote de mel ao lado para ela mesma misturar. Aquele iogurte que já vinha com mel não substituía o que ela misturava. Ela gostava de comer pães de massa fina, apesar de preferir sacadura, “sacadura é bom com azeite extra virgem antes do almoço, e não no café da manhã”. Juliana também era adepta do café feito em cafeteira italiana, misturado leite semidesnatado. Algumas vezes, quando o leite era desnatado, ela preferia tomar com chá preto.
Como Juliana gostava das manhãs. Não apenas pelo prazer do paladar. Não!Era visual, era ritual. Se alguém acordasse antes das 7 horas da manhã, e colocasse a mesa do café para ela, não tinha o mesmo sabor. Ela gostava de escolher a toalha, arranjar as peças e os talheres na disposição certas. Assim como as frutas. O suco de laranja sempre estava ao centro da mesa, na jarra lisa de cristal, ou mesmo na de vidro. Os talheres podiam ser vermelhos ou prata, desde que fossem se vermelhos, todos vermelhos, se prata, todos prata.
Não que Juliana não apreciasse outros cafés da manha, como os de hotéis luxuosos, com um buffet cheio de variedades raras, ou mesmo de uma pousada com gosto de café do campo. Ela gostava muito, porém não tanto quanto os que ela fazia em casa. Também gostava de café na bandeja, em cima da cama, com gosto de preguiça. Vez ou outra, porém o café de todos os dias era insubstituível.
Toda vez que ela terminava seu suco de laranja, última coisa que ingeria pelas manhãs, Juliana começava a ler o jornal. Contudo, ela nunca leu nenhuma palavra antes de pensar “Tomar café é como fazer sexo”. Vai-se entender porque… o fato era que depois do jornal, ela voltava para a cama e dormia novamente.